Aprender não é acumular cursos: o que Ram Charan me ensinou sobre desenvolver capacidades

Por Bruno Passarelli
Durante uma palestra de Ram Charan na B55 Conference, uma demonstração de basquete me chamou mais atenção do que qualquer fórmula de gestão.
O treinador não pedia simplesmente que a atleta melhorasse. Ele mostrava a base, dividia o movimento, observava a execução e corrigia um detalhe por vez.
Charan usou essa cena para falar de negócios. Eu a trouxe também para uma pergunta de carreira: por que tantas vezes tratamos o aprendizado como assistir a uma aula, se melhorar exige praticar, receber retorno e repetir?
O que a palestra me fez perceber
Ele insistiu que boa parte do conhecimento de quem já construiu uma empresa fica escondida na cabeça dessa pessoa. Sugeriu registrar decisões em vídeos curtos: como entrevistar, conquistar um cliente ou avaliar uma oportunidade. O valor não está em decorar a decisão final. Está em enxergar os critérios usados para chegar a ela.
Isso vale para quem procura o primeiro emprego, quer mudar de área ou se prepara para liderar. Pense em uma entrevista de trabalho. Dizer “preciso ir melhor na próxima” ajuda pouco. Separar a habilidade em partes ajuda muito mais: pesquisei a empresa? Consegui explicar meu trabalho com exemplos? Ouvi a pergunta inteira? Fiz boas perguntas? Que resposta posso treinar de novo?
Minha aplicação prática é escolher uma competência por vez e criar um ciclo: observar alguém que a domina, tentar, pedir um retorno específico e repetir. A experiência ensina mais quando paramos para examinar o que funcionou e por quê.
O que os livros acrescentaram
Em Pipeline de Liderança, escrito com Stephen Drotter e James Noel, Charan explica que cada passagem para uma função maior pede mudanças de habilidades, de uso do tempo e de valores de trabalho. Um profissional excelente na entrega individual pode ser promovido e continuar fazendo tudo sozinho. O cargo muda; a forma de trabalhar, não.
Esse ponto é útil mesmo para quem ainda não lidera. Se a próxima etapa exige coordenar pessoas, não adianta apenas produzir mais do mesmo. É preciso praticar distribuição de responsabilidades, feedback, planejamento e acompanhamento.
Já em Execução, escrito com Larry Bossidy, a ideia central é aproximar pessoas, estratégia e operação. Na vida profissional, traduzo isso assim: um objetivo só fica concreto quando sei quem pode ajudar, o que farei de fato e como verificarei o avanço. “Quero crescer na carreira” é uma ambição legítima, mas ainda não é um plano.
Um exercício para fazer hoje
Escreva a oportunidade que você gostaria de alcançar nos próximos dois anos. Em seguida, responda:
- Que decisões e entregas essa oportunidade exige?
- Qual habilidade você ainda não demonstra de forma consistente?
- Quem pode deixar você observar essa habilidade em uma situação real?
- Qual projeto pequeno permitiria praticá-la neste mês?
- Que evidência mostrará que você melhorou?
Ram Charan falou na palestra em começar pelo objetivo e trabalhar de trás para frente. Gosto dessa lógica porque ela tira o aprendizado do campo da intenção e o coloca na agenda.
Minha maior conclusão é que estudar continua importante, mas o conhecimento ganha força quando muda uma ação.
Às vezes, a próxima etapa da carreira começa com algo tão concreto quanto acompanhar uma decisão, tentar fazê-la e pedir a alguém que mostre onde seu raciocínio ainda falha.
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