Resolver tudo não é a mesma coisa que construir uma empresa

Por Bruno Passarelli
Uma reflexão ficou comigo depois do painel com David Vélez (Nubank), André Street (Stone), Guilherme Benchimol (XP) e Cris Faé (B55) na B55 Conference: a disposição para fazer acontecer pode ajudar a construir um negócio, mas também pode impedir seu fundador de enfrentar problemas na raiz.
Isso acontece quando o empreendedor continua fazendo o trabalho que deveria estar com outras pessoas e deixa de tomar decisões sobre o time e a direção da empresa. Esse ponto apareceu de forma bastante direta na conversa.
Não interpreto isso como uma defesa de um líder distante da operação. Para mim, é um convite para revisar onde estou colocando meu tempo e o que minha atuação está ajudando a construir.
Levei três aprendizados para pensar sobre isso na prática.
Cultura não pode ficar para quando sobrar tempo
O painel trouxe uma provocação sobre adiar a construção da cultura. Mesmo sem atenção deliberada, ela vai se formando. A oportunidade está em dar clareza aos valores desde o começo e avaliar se o comportamento corresponde ao que foi declarado.
Minha tradução para o dia a dia é: cultura precisa aparecer nas decisões, não apenas na apresentação da empresa.
Na próxima reunião de liderança, eu colocaria duas perguntas na mesa: qual comportamento dizemos valorizar, mas ainda não reconhecemos na prática? E qual comportamento criticamos no discurso, mas continuamos aceitando?
Essa revisão precisa incluir o próprio líder. Resultado e comportamento devem entrar na mesma conversa: nem a entrega justifica qualquer atitude, nem o discurso substitui a entrega.
Cuidar de gente é parte do trabalho, não uma interrupção dele
Outro ponto foi a necessidade de dedicar tempo à contratação, à cultura e ao desenvolvimento das pessoas. Não tratar uma contratação como uma tarefa encerrada apenas porque alguém preencheu a vaga.
O aprendizado que levo é: antes de assumir novamente um problema, preciso entender por que ele voltou para mim.
Minha aplicação seria perguntar: faltou clareza sobre a entrega? Faltou autonomia? Existe uma competência que precisa ser desenvolvida? Estou assumindo algo que deveria ajudar outra pessoa a resolver?
São perguntas para orientar uma decisão, não para concluir automaticamente que o problema é o profissional.
Também levo uma revisão da agenda: quanto tempo estou dedicando a desenvolver a capacidade do time e quanto estou gastando para compensar o que ainda não funciona?
Planejar também é decidir onde não colocar energia
A conversa reforçou a importância de organizar a visão de futuro, entender quem a empresa serve e escolher como distribuir capital e energia.
Minha síntese é: ter muitas possibilidades não elimina a necessidade de fazer escolhas.
Antes de começar uma nova iniciativa, eu colocaria no papel qual problema ela resolve, para quem, como se conecta à direção da empresa e o que precisará perder prioridade para que ela aconteça.
Esse exercício também vale para o que já está em andamento. Não basta analisar a próxima oportunidade; preciso revisar se os compromissos atuais ainda fazem sentido juntos.
O que quero mudar na minha rotina
Não saí desse painel com uma fórmula pronta. Saí com três compromissos para orientar minha atuação: dar espaço real às pessoas na agenda, olhar para resultado e comportamento e explicitar as escolhas antes de abrir novas frentes.
A pergunta que fica para mim é: estou usando minha capacidade de executar para construir a empresa ou para compensar decisões que continuo adiando?
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